THE PYRAMID SESSIONS Rocky Marsiano é D-Mars. E D-Mars é Rocky Marsiano. Este novo alter-ego, construído através da junção do apelido real e do nome artístico, revela uma nova faceta em D-Mars. Um lado em que a produção surge desarmada de rimas, despida de palavras e a ter que saber valer por si mesma. E o resultado é enorme! Um disco em que o Hip Hop e o Jazz são usados como coordenadas numa viagem interior pautada pelo amor da descoberta e pelo prazer do groove. “The Pyramid Sessions” é mais uma etapa na já muito recheada carreira de D-Mars, mas é igualmente algo que já se adivinhava nos seus trabalhos anteriores. Com os Micro ou os Mentes Conscientes, a solo ou com os Ofício, D-Mars construiu uma sólida reputação. Não só como MC conhecedor dos códigos das velhas e novas escolas, mas também como produtor aberto aos mais diversos métodos de produção. Com o sampler e a sua colecção de discos nos trabalhos dos Micro, ou com as novas tecnologias digitais e um arsenal de bleeps electrónicos no álbum dos Ofício, D-Mars sempre demonstrou ser mais fiel às ideias que alimenta na sua cabeça do que a um método ortodoxo de produção. E o novíssimo “The Pyramid Sessions” prova isso mesmo, colando loops retirados de velhos discos de vinil, teclados electrónicos e instrumentação real, numa viagem essencialmente instrumental que nunca abandona o território do Hip Hop, mas que se aproxima decididamente de uma ideia de jazz muito própria. O jazz é, por eleição, o território do improviso e da jam session, das pulsões do momento e da comunicação telepática entre músicos. “The Pyramid Sessions”, por outro lado, é resultado directo de noites solitárias num estúdio que D-Mars conhece como a palma da sua mão, situado num edifício que deve o seu nome às mais famosas construções do Antigo Egipto. Visto sob esse prisma, este álbum reflecte uma das paixões musicais de D-Mars, filtrada pela sua filiação estética nos campos do Hip Hop. Mas é igualmente fruto de uma visão generosa da música, de uma imaginação fértil que colocada em prática no espaço do estúdio permite conjurar encontros inimagináveis entre solistas de outros tempos, fixados em vinil, e a panóplia electrónica que o estúdio coloca à sua disposição, entre o espaço virtual da MPC e a respiração natural de músicos como Rodrigo Amado (saxofone), Nel’Assassin (gira-discos), D_Fine (voz) e T-One (guitarrista que é igualmente líder dos funkers Mr. Lizard). Assim, “The Pyramid Sessions” não reflecte apenas o papel de D-Mars como produtor, mas afirma-o igualmente como orquestrador, compositor e catalizador de talentos com origem diversa. Além, claro, de manipulador sério da mesa de mistura e das potencialidades do estúdio, pois este álbum foi inteiramente gravado e misturado pelo próprio D-Mars. Nos 14 temas de “The Pyramid Sessions” D-Mars explora a sua ideia pessoal de jazz, conciliando pianos, guitarras, sopros e vibrafones, breaks de bateria e cortes de scratch com a maturidade de quem aprendeu a olhar para a música através dos generosamente amplos olhos do Hip Hop. Porque além de todos os classificativos apontados no parágrafro anterior, D-Mars é igualmente um “crate digger” convicto, explorador dos mais diversos locais onde o vinil ganha pó e resiste à história. Por isso, “The Pyramid Sessions” pode ser lido também como uma homenagem a todo um género, como um tributo à nobre linhagem que se estende de Louis Armstrong a Herbie Hancock, de Charlie Parker a Lou Donaldson e de Dizzy Gillespie a todos os outros grandes gigantes da história do jazz. Uma história que D-Mars foi descobrindo de uma forma pessoal, não com a linearidade académica sugerida em estudos sobre o género, mas com o carácter imprevisível e aleatório de quem aborda a música ao sabor das descobertas em lojas onde os discos procuram novos donos. No fundo, os lados técnico e criativo deste álbum, traduzíveis nas tais vertentes da produção, da orquestração, da própria paixão pela descoberta através do diggin’, podem resumir-se num único rótulo que é o que este álbum de facto sugere: D-Mars é também um músico. E estas são as suas sessões. O single inaugural de “The Pyramid Sessions” é “Hold of Me”, servido pela voz de um cantor histórico que viu a luz de uma forma muito interior. O tema já roda nalgumas rádios mais abertas à novidade e será reforçado por um vídeo onde a própria história da feitura deste álbum é revelada. Esperem igualmente por uma remistura de “LX Extravaganza” a cargo de Alexandre Camarão. Para terminar, interessa saber que na base da pirâmide há um homem que todos os dias traduz o seu imenso amor pela música em novos argumentos que reforçam a validade do Hip Hop em território nacional. Todos os dias, sem excepção. Porque todos os dias há espaço para a descoberta de uma nova sonoridade, um novo músico, um novo loop ou um novo break de bateria que revelam o condão de iluminar o caminho até uma nova criação. Na base da pirâmide onde D-Mars se encontra, todos os dias se faz música. Estas “pyramid sessions” contam a história de alguns desses dias. Cinzentos de frio, mas efervescentes de ideias. Sejam bem vindos!