OUTRO UNIVERSO Chegou a hora. Chegou a hora de reconhecer bem alto a chama que anima a voz e a paixão de Melo D. Companheiro dos Cool Hipnoise nos dois primeiros álbuns – “Nascer do Soul” e o clássico “Missão Groove” – veterano do “Rapública” com os seus Family de sempre, militante inquieto da cena Hip Hop nacional com inúmeras participações em mixtapes e passagens inesquecíveis por palcos underground ardendo em combustão de palavras, Melo D sempre caminhou entre a soul de recorte clássico e o Hip Hop das ruas. Dirá a quem lhe perguntar que é MC antes de mais nada, mas “Outro Universo” reclama para a sua voz novas paisagens e revela a quem se dignar ouvir um produtor maduro com consciência plena do swing exigido por um beat. “Outro Universo” é um disco que nasce de uma necessidade imperiosa de escrever em papel e multi-pistas a história de uma vida feita de música. De toda a música. Depois da “Introdução” jazzy carregada por um baixo fundo, Melo D pede-nos para o seguirmos a um outro universo e logo aí deixa claro que o seu disco de estreia a solo é, antes de mais nada, a sua homenagem pessoal ao imenso legado da música que o moldou. Praticamente todos os temas são atravessados por referências directas ou indirectas aos nomes que o marcaram. Estas listagens – imensas e sentidas – são um tributo puro de quem sente a necessidade de identificar a sua paternidade artística, procurando, no processo, a sua própria identidade e o seu lugar num mundo de notas, acordes, posturas, vozes e mensagens. Logo a abrir, Melo identifica as constelações desse universo em que navega: João Gilberto, Wes Montgomery, Rakim, Melle Mel, Just Ice, Terry Callier, Public Enemy, James Brown, Bob Marley, Cesária, Mos Def, Fela Kuti, Micro, John Coltrane, Bana, Sun Ra, Double V, Gang Starr, Tito Paris, Tony Allen, Marcus Miller, Carlos do Carmo, Dizzy Gillespie, Bernardo Sassetti, Tito Puente, Maria João e Mário Laginha, Miles Davis, Carlos Barreto, Thelonious Monk e Roy Ayers são alguns dos nomes citados. E assim se levanta o pano sobre um palco cósmico onde o jazz, o funk e a soul, o reggae, África, o fado, as cores latinas ou o Hip Hop se confundem num todo Maior que Melo procura tocar com devoção. Há duas homenagens directas neste álbum. Marvin Gaye é alvo de um tributo num tema em que a “simples” citação de títulos de músicas e frases de canções procura ilustrar o impacto que a alma por trás de “What’s Going On” teve em Melo D. E Barry White é evocado num tema em que o “fake english” murmurado funciona como uma prece ritmada de homenagem a um gigante recentemente desaparecido que sempre nos tocou mais pela forma como respirava com real paixão um “come on baby” do que pela real espessura das palavras de que se faziam as suas canções. Em ambos os casos, Melo revela-se um produtor inspirado, apoiando o seu tributo a Marvin numa cadência de “dancehall” que rapidamente se transforma numa viagem à Bahia e a homenagem a Barry num Disco Boogie de carburação justamente lenta. Há músicos neste disco: João Gomes, dos Cool Hipnoise e Space Boys, surge discreto em “Humbi Humbi (Cosmic Huambo)” curvando as teclas do seu Rhodes ao desejo de transcendência espacial que atravessa um tema do folclore angolano (também recentemente visitado pelos Bulllet com Kalaf em “The Lost Vocal Tapes”); Luís Fagulha é guitarrista e marca temas como “Theme For Barry” e “Theme For Marvin”. O baixista Filipe Larsen entrega o groove ao tributo a Barry White e deixa escorregar a sua arte para dentro da alma de Melo na blues jam de “Blues do Músico Descontente”, em que Fagulha também participa. Toni, por outro lado, deixa a voz nos Mundo Complexo e traz as congas para o estúdio, ajudando a transportar Melo até à Bahia em “Menina…”. Mas o principal músico em “Outro Universo” é, precisamente, Melo D. Sozinho no seu quarto, nos últimos anos, aprendeu a controlar a MPC, estudou guitarra, baixo e teclados e usou os conhecimentos para construir um álbum pleno de “groove”, com beats luminosos em que o carácter sincopado do Hip Hop é sempre – e apenas… - um ponto de partida para outras dimensões, onde o reggae, o jazz, Àfrica e o Brasil se integram deliciosamente nas composições. No tema “Em Tempos Amei…”, Melo deixa mesmo guiar-se pelo espírito, solitário no seu quarto, gravando num minúsculo aparelho de quatro pistas a sua visão do Lovers Rock mais sensual. Um beat, um baixo profundo e a própria guitarra acústica de Melo D são suficientes (e se os dedos não traduzem o solo que tem na cabeça, esse papel é entregue à própria voz que mimetiza um solo de guitarra de forma intensa e apaixonada). A voz, essa, é captada através de um par de auscultadores conferindo ao tema uma intrigante aura “lo-fi” que, no fundo, é apenas a versão de um Melo D em modo íntimo e secreto. O espantoso em “Outro Universo” é o facto de ser uma autêntica revelação. Porque o Melo D que aqui se expõe não é o mesmo dos Cool Hipnoise, nem dos Family nem dos inflamados freestyles das mixtapes underground. Ou talvez seja também esse Melo. Mas é muito mais. É um produtor inspirado, uma voz que carrega dor e luz e esperança e paixão e real saber. É um músico em crescimento, com noção aguda da estrutura molecular do beat, capaz de com apenas um loop atirar o Hip Hop para o espaço. E é, sobretudo, uma voz tão honesta que não consegue deixar de dizer – através de todos os nomes citados – todos os segredos da sua arte. Uma voz cheia de marcas de vida, uma voz ingénua e, sobretudo, verdadeira. O primeiro single de “Outro Universo” é o imenso “Boas Vibrações”, um Hip Hop tingido de reggae onde surge a poderosa voz de Sagas (MC dos Micro) numa participação arrasadora. Double V, dos Family, assina outra das colaborações, oferecendo com Melo D uma explicação detalhada do Hip Hop em “Hip Hop É…”, um tema com fervor de Hino no refrão. “Outro Universo” fecha com o mais desarmante dos exercícios. Um blues improvisado quando a noite já ia alta no estúdio onde Melo D se expõe de forma extrema, abrindo o coração através da voz e confessando-se sem artifícios. Para trás ficam 13 outras faixas de puro brilhantismo, perfeitas no equilíbrio entre os sons e as palavras, entre o que se diz e o que mantém em segredo, entre o que se canta e o que apenas se sussurra. Este álbum foi gravado e misturado por D-Mars no estúdio da Loop. Em sessões onde o prazer da descoberta se percebia de cada vez que a MPC debitava os segredos revelados pelos velhos discos que Melo colecciona com a paixão de quem quer conhecer toda a música (e que depois partilha com quem o quer ouvir nas suas noites de DJing Soul Movement, no Fluid em Lisboa). “Outro Universo” é um local real. Melo D habita-o desde sempre. E agora convida-nos a entrar!