MECANOSPHERE 1. O procedimento em Mécanosphère Mécanosphère não faz música "improvisada" ou "experimental", entendida como processo de desconstrução do 'tocar' ou como trabalho sobre os sons em si na sua relação 'in situ'. Mécanosphère limita-se a gravar sistematicamente tudo o que faz e a nunca fazer coisas numa perspectiva de composição de estruturas repetíveis no futuro. Assim, Mécanosphère não distingue o processo de composição do processo de criação, de ensaio, etc.. O 'improvisar' é aqui uma maneira de construir em permanência, não uma forma de desconstruir o acto musical ou de o investigar enquanto tal. Um álbum de Mécanosphère é o resultado do que Mécanosphère grava (e constrói) num determinado lapso de tempo e com determinadas condições técnicas. Se Mécanosphère gravar (e construir) num outro lapso de tempo ou com outras condições técnicas, Mécanosphère realizará diferentes álbuns ou acumulará diferentes músicas. A música de Mécanosphère não existe noutros formatos que não sejam gravações. Os concertos de Mécanosphère são operações rituais onde Mécanosphère põe a nú o seu sistema nervoso e o seu relacionamento com o acto de construir um sentido, um discurso. Mécanosphère constrói em directo. E gosta que, como numa peça de roupa envergada do avesso, sejam audíveis e 'visíveis' os cortes e as estruturas da costura. Em vez de usar a tecnologia e a produção para que seja esquecida a estrutura, numa valorização pura do resultado, Mécanosphère quer que produção, resultado, processo e estrutura sejam indivisíveis e que todos participem do sentido geral do seu discurso. É essa a razão porque Mécanosphère não pode funcionar na clássica bi-polaridade entre 'composição' e 'execução', antes procura uma forma de construção permanente que não distingue entre o tema da sua estrutura e o seu processo de criação. Este processo, por sua vez, é inseparável do quadro e dos parâmetros que lhe são dados: se se tratar de estúdio a finalidade é a composição, se se tratar de concerto a finalidade é a execução. 2. O músico em Mécanosphère Mécanosphère é Benjamin Brejon, Adolfo Luxúria Canibal e uns tantos músicos, artistas e colaboradores que aceitam colocar a sua total liberdade de execução e sabedoria técnica num quadro onde não é dada nenhuma fórmula, antes é assinalada uma função dentro da mecânica geral do processo supra mencionado. Mécanosphère conta também com os traços fantasmáticos (os fantasmas) deixados pelos músicos que nele actuaram e participaram. Cada um deixou uma série de coisas que foram ou recicladas ou ultrapassadas ou esquecidas. Benjamin Brejon e Adolfo Luxúria Canibal são meros guardiões e pilares das linguagens e processos que Mécanosphère implica: a voz e a técnica de mistura electro-acústica e de construção musical. Formam o epicentro do discurso e da sua formulação concreta. A receita de cozinha. Os músicos que actualmente participam em Mécanosphère são o baterista francês Le Pilote Rouge, o percussionista, performer animalesco e músico electrónico norte-americano Sikhara e outros como o tocador de cítara português Zé Conde ou o amigo britânico Sandy Kilpatrick. 3. A palavra em Mécanosphère As letras de Adolfo Luxúria Canibal nunca falam na primeira pessoa, ou só de forma unicamente alegórica. Esta posição faz com que Mécanosphère não seja uma máquina de opinião mas uma articulação crítica das altercações da obra no real, nas estruturas de criação de realidade e nas estruturas opinativas. Como Walter Benjamin, Mécanosphère não constrói um discurso crítico a partir da sua interpretação ou dos seus 'sentimentos'. Mécanosphère recusa o existencialismo, sob as suas várias formulações (demagógicas ou de raíz sociológica), e o 'personalismo' em matéria de prática artística. Mécanosphère considera que estes meios falham tanto no exprimir de qualquer coisa de sólido e de 'pessoal' como, sobretudo, na (re)qualificação da prática artística na sua função crítica matricial. Infelizmente, ainda há uma grande indistinção e mau entendimento entre 'arte' e 'entretenimento cultural', entre 'poesia' e 'sentimentalismo romântico', entre 'filosofia' e 'opinião', entre 'personalidade' e 'pessoa', entre 'impressão' e 'expressão'. As letras em Mécanosphère são gestos críticos, derivações de textos pré-existentes, montagens. Como na construção das músicas, é aí que ganham a literalidade do seu 'sentido', num processo de execução e de reciclagem de linguagens. 4. A matéria em Mécanosphère A construção musical de Mécanosphère assenta na utilização de live-looping, de sons analógico tocados e/ou samplados, de baterias e percussões acústicas, de electrónica orgânica e de frequências sub-graves. Não é utilizado qualquer sampler de fontes pré-existentes. Mécanosphère faz uma reinterpretação orgânica das linguagens da música de dança post-industrial electrónica (breakbeats, hip hop, dub) e uma reinterpretação do classicismo do rock tocado pelos processos e percepções da música electrónica. O computador não é, em Mécanosphère, utilizado como instrumento central (processo / montagem / produção), apenas como mero instrumento lateral, periférico, eventual. O conceito de Mécanosphère é encher o espaço de som antes de o considerar como um 'dado', a que se acrescenta o 'estilo' e a 'pose'.