IRMANDADE No estado mais puro, o hip hop traduz-se numa série de explosões. São as deflagrações da alma, da voz, do sampler e do gira-discos, dos movimentos no espaço e das cores no concreto... Explosões íntimas ou públicas, visíveis, invisíveis, mas sempre com o mesmo som: o de rimas, batidas, diamante a riscar vinil, fat caps a debitarem gotas microscópicas ou nylon em atrito quase nulo com uma superfície lisa. É esse o som explosivo da Irmandade... Antes ainda de se lançar, conjuntamente com Buddah e Jaws-T, na aventura da Loop:Recordings, D-Mars já era um agitador formado com distinção em Ciências Superiores do Hip Hop. Entre a rádio, o quarto e a sala de ensaios dos Micro, D-Mars desenhava uma ligação de militante ao hip hop, usando-o como ponto congregador de almas nas mixtapes e compilações que imaginou, produziu e lançou. Entre Agosto de 2000 e Agosto de 2001 – entre dois picos de Verão – D-Mars conduziu a partir do seu quarto quatro sessões de gravação/composição traduzidas na prática em quatro longas noites passadas ao lado do gravador e em frente ao microfone. Convocados para se juntarem à Irmandade foram os MC’s Fuse dos Dealema, Ridículo dos Mundo Complexo e, dos Micro, Sagas e D-Mars. Quatro vozes distintas, entre o tom gutural de Fuse, o flow irónico-colorido de Ridículo, o som profundo de D-Mars e as mil entoações de Sagas. Quatro vozes com personalidades próprias, quatro visões da Arte da Rima, quatro idéias, quatro almas. Apesar das datas de gravação, Irmandade só agora surge no mercado, por só agora se terem reunido as condições para a sua edição. Mas apesar do desfasamento entre o imediatismo das gravações e a edição, Irmandade mantém um carácter actual. Olhando da janela de D-Mars para o mundo, o que se observa é uma utopia: apesar da precaridade das condições de gravação (microfone de 10 contos ligado directamente ao gravador, sem máquinas para dourar o flow), o resultado é profundo, como o Oceano que se pressente do oitavo andar da casa de D-Mars. Como se tal fosse possível, parece por vezes que os Beats assinados principalmente por D-Mars, mas também por Fuse, Sagas, Ridículo e Iman Iran, ecoam nas capas dos clássicos de hip hop espalhados pelo quarto onde as gravações tiveram lugar, captando-lhes o espírito e a mensagem. “Tudo começou como uma experiência, que se foi desenvolvendo em três fases distintas”, explica D-Mars na faixa que conclui “Irmandade”. Sem nenhuma ideia pré-programada, os quatro MC’s juntavam-se, ouviam beats possíveis e escreviam na hora as rimas, antes de imediatamente a seguir as fixarem no gravador. E ao longo do ano, sentem-se os MC’s a crescer, a trazer para aquele quarto a experiência entretanto angariada no seio de cada um dos grupos, nas mixtapes que foram fazendo ou nos concertos em que surgiram. Nas 17 faixas de “Irmandade” trocam-se idéias, como numa longa conversa, expondo cada um dos MC’s presentes a sua alma nua, sem truques nem mentiras. E as batidas que sustentam os monólogos/diálogos/conversas são elas próprias profundas, imaginativas e densas. Batidas produzidas por quem conhece bem o hip hop, com ecos de mil colecções de disco passadas pela lupa do sampler por quem sabe o melhor ângulo por onde aprisionar um loop. Irmandade é assim: quatro mosqueteiros, quatro cavaleiros do apocalipse, quatro cantos de um mundo criado dentro de um quarto. Sagas, D-Mars, Fuse e Ridículo… Quatro vozes de excepção, um disco clássico.