INSPECTOR MÓRBIDO Parte da magia do Hip Hop reside na actividade do sampling: recolher sons de múltiplas origens e recontextualizá-los em peças de novo significado é uma exercício que não se isenta de um certo simbolismo. Muitas das vezes, os excertos recolhidos através da minúcia do sampler arrastam consigo porções do dramatismo original das peças e, quantas vezes, parte da história inicial com que esses excertos nasceram. Tendo em conta essa carga dramática, é portanto natural que muitos produtores de Hip Hop se vejam a si mesmos como autores de bandas sonoras de filmes com sessões contínuas garantidas pelo menos dentro das suas próprias cabeças. É esse o caso de Fuse, que agora chega ao seu terceiro álbum a solo, depois de “Informação ao Núcleo” e “Sintoniza…” (e depois, claro, do álbum dos Dealema editado pela Nortesul há alguns meses). Fuse enumera duas grandes paixões na sua vida: o Hip Hop e o cinema fantástico. Juntar essas duas paixões numa obra pensada e estruturada foi, por isso mesmo, um acto natural. “Instrumentais”, o álbum assinado com o alter ego Inspector Mórbido, funciona assim como uma banda sonora para um imaginário filme de terror, feita de fragmentos de sons, mas também de imagens só ausentes se não se souber fechar os olhos e deixar as suas batidas comandar a nossa imaginação. Hellraiser, Nightmare on Elm Street, Interview With The Vampire, Wishmaster, Bram Stoker's Dracula, Poltergeist, Friday the 13th, Lord of Illusions, The Night of The Living Dead, Army Of Darkness, Sixth Sense ou Vidoq são alguns dos filmes favoritos de Fuse dentro do género fantástico e colam-se assim a uma outra série de referências, essas musicais, dentro do Hip Hop. O resultado da conjugação desses dois universos é um álbum poderosamente dramático, pesado, denso e negro. Uma coisa é certa, Fuse não se escusa a explorar o lado mais obscuro da mente humana. E faz isso com uma precisão clínica na construção dos seus beats, carregando nas atmosferas pesadas, abusando do drama e do suspense. Claro que a criação de batidas não é uma actividade nova para Fuse que desde “Informação ao Núcleo” dá a conhecer este seu lado de arquitecto sonoro. Mas “Instrumentais” revela o seu enorme talento ao fazer a actividade de produção de beats curvar-se a um conceito específico. O disco está feito e agora só falta quem o conjugue com um festival de zombies, monstros míticos, pesadelos feitos imagem, banhos de sangue e suspensão dramática enquanto o luar brilha sobre um punhal. A grande vintude deste álbum é conseguir transformar cada um de nós num realizador. E, mesmo assim, não se saberá como o filme acaba! SINTONIZA A vontade consegue erguer monumentos, obras que parecem impossíveis. Prova disso é a carreira de Fuse, que praticamente sozinho criou, gravou e editou “Informação ao Núcleo”, o seu primeiro álbum a solo (mais tarde reeditado pela Loop) que em 2001 cravou bem fundo o seu nome no panorama Hip Hop português. Estamos agora em 2003. Tempo para “Sintoniza...”! O novo álbum de Fuse foi gravado por D-Mars no estúdio da Loop ao longo dos últimos meses. Entre o Verão e o Outono de 2002 desenhou-se um álbum que começa finalmente a transportar o Hip Hop nacional para a idade adulta. Fuse surge neste álbum como MC, primeiro, e como produtor nalguns dos temas, só depois, entregando a maior parte dos beats a autores externos: Sagas dos Micro, Iman Iran (que tem surgido nalgumas das edições da Loop, como por exemplo “Irmandade” e “Microlandeses”), Just Yves, Bomberjack, Sam The Kid e Mundo (dos Dealema). Ou seja, o próprio Hip Hop parece procurar o melhor de si para se apresentar através de Fuse. A sonoridade de “Informação ao Núcleo” destacou-se por ser mais pesada e escura do que a maior parte das produções hip hop nacionais. Neste novo álbum, Fuse mantém essa toada cinzenta, explorando temáticas complexas como a relação das pessoas com a religião, mas também deixa algum espaço para que a luz se manifeste, abrindo a sua paleta de cores com temas como “Prémio Nobel”, o single de estreia. “Prémio Nobel” é “dedicada a todas aquelas pessoas que nunca tiveram reconhecimento na vida”, como refere Fuse no início do tema. É uma celebração do anonimato numa época em que se glorifica o mediatismo oco e a visibilidade a todo o custo. Tudo bem... Fuse já se habituou há muito a remar contra a maré, batalhando o seu nome em mixtapes e militando no underground até à chegada do seu momento. Como tantos outros MC’s, foi com instrumentais alheios e um gravador de cassetes esforçado, que Fuse começou a dar os primeiros passos na música, há 10 anos. “Quando ouvia uma música em que apanhava um bocado de instrumental sem voz, usava dois decks de cassetes e fazia loops. Na altura eu chamava-lhe a técnica do “Pause-Rec,” explica. Essas gravações levaram a um encontro com Ixpião e ao nascimento dos Fullashit, com o proverbial envio de maquetes para a Antena 3, que lhes cimentou a vontade. Em 95, Fuse e Ixpião conheceram Guze e Mundo, membros dos Factor x. Da junção dos dois grupos e do cruzamento com Maze nasceram então os Dealema. “No momento certo,” refere Fuse, com a noção aguçada de que no Hip Hop o timing é crucial. Em finais de 1995, Fuse grava com os Dealema aquela que é uma das mais míticas maquetes do underground nacional, “Expresso do Submundo”. A lenda começou aí... Em 1996, os Dealema participam no primeiro álbum dos Mind da Gap, dando início aí a uma amizade que os leva inclusive a partilhar palcos com o trio nortenho durante algum tempo. O espaço que medeia entre essa época e o presente foi passado por Fuse a cimentar os seus skills, participando em muitas mixtapes – DJ Assassino, Cruzfader, Bomberjack – e preparando com calma o mundo para a sua visão desta Cultura. Uma participação muito especial no projecto Irmandade faz igualmente parte da sua caminhada até ao presente, sendo a sua colaboração em álbuns de Bomberjack, Valete, Mind da Gap, Micro ou as aparições em compilações como Rockaforte e Loop:Soundz outros passos importantes da sua carreira. Agora, sintonizar é preciso. No seu novo álbum, Fuse abre-nos a porta de um mundo privado, intenso e profundo. As metáforas são janelas sobre o seu pensamento e os beats que as carregam a arma de arremesso necessária para enfrentar a realidade. Fuse é, sem dúvida, um dos mais seguros valores do nosso panorama Hip Hop. A confirmação está em “Sintoniza...” PREMIO NOBEL O hip hop tem muitas cores. Na maior parte do tempo Fuse passeia-se pelas suas sombras, explorando o lado mais negro da alma humana em rimas naturalmente ácidas, propositadamente agudas, necessariamente pesadas. De tempos a tempos, Fuse deixa entrar um pouco de luz... aconteceu com “Prémio Nobel”, o primeiro single – produzido por Sam the Kid - retirado de “Sintoniza...”, o seu novo álbum. “Prémio Nobel” é “dedicada a todas aquelas pessoas que nunca tiveram reconhecimento na vida”, como refere Fuse no início do tema. É uma celebração do anonimato numa época em que se glorifica o mediatismo oco e a visibilidade a todo o custo. Tudo bem... Fuse já se habituou há muito a remar contra a maré, batalhando o seu nome em mixtapes e militando no underground até à chegada do seu momento. Em 2002, a Loop:Recordings associou-se a Fuse com a reedição de “Informação ao Núcleo”, a estreia a solo deste MC do Porto, parte integrante dos Dealema, um grupo central na cena Hip Hop da Invicta desde 1995. “Informação ao Núcleo” colocou Fuse no mapa Hip Hop nacional de uma forma que não deixava espaço para dúvidas sobre o seu enorme talento. As palavras e as batidas desse disco sintonizaram-se com um lado mais introspectivo do Hip Hop, que Fuse continua a explorar com caneta de mestre e entrega incondicional. Neste CD-single encontra-se ainda o tema “Alegoria da Vida”, uma produção de Sagas dos Micro que surgiu originalmente o ano passado na compilação “Loop:Soundz”. A versão instrumental de “Prémio Nobel” (onde se destaca a colaboração de Francisco Rebelo, dos Cool Hipnoise, no baixo, e Carla Moreira, na voz) e “Falsos Profetas”, produzido por Soma, completam o alinhamento deste CD. A gravação e as misturas estiveram a cargo de D-Mars nos Loop Studios. O álbum, onde se inclui a versão original de “Prémio Nobel”, tem por título “Sintoniza...” e chegará às lojas no próximo mês de Fevereiro. Carregado de surpresas... Aguardem! INFORMAÇÃO AO NÚCLEO Depois de uma primeira edição em regime de autor, o álbum “Informação ao Núcleo” (anteriormente disponível apenas numa curta edição de 300 exemplares), que marcou a estreia a solo de Fuse, MC ligado ao colectivo Dealema (velha escola do Porto), volta a estar disponível, desta vez numa edição alargada da Loop:Recordings que conta com três temas inéditos não disponíveis na edição original. Fuse é, sem dúvida, um dos mais visiveis nomes do Porto no que ao Hip Hop diz respeito. Com colaborações diversas em discos dos Mind Da Gap, Bomberjack, Roca Forte, Hip Hop Portuga 2000 ou mixtapes de Nel’Assassin e Cruz Fader, Fuse distinguiu-se recentemente com a sua colaboração no projecto Irmandade (poolcd002), com uma curiosa faixa no álbum de estreia de Bulllet e, sobretudo, com a faixa “Alegoria da Vida” (que roda insistentemente nalgumas rádios nacionais), incluída no CD “Loop:Soundz” (edição da Loop distribuida gratuitamente com a revista Dance Club). Mas neste álbum a solo, produzido quase exclusivamente pelo próprio Fuse (e gravado e misturado caseiramente), o talento deste MC fica mais exposto. Rimas apocalípticas e um tom gutural dão ao disco um ambiente soturno, quebrado a espaços por algumas explosões de cor que resultaram em hits do “underground” nacional (como é o caso de “Tropicaliente”, uma ode à cidade do Porto, ou “Tudo o que Tenho em Mim”, um exercício de estilo sobre o que um MC tem para dar). Os beats são propositadamente pesados e densos, mas os skills de Fuse são suficientes para darem conta do recado… Fuse encontra-se já em fase de preparação do seu novo álbum, ainda sem título, que deverá ter edição da Loop:Recordings depois do Verão. Neste novo álbum, Fuse contará com a colaboração de nomes como Sam the Kid, D-Mars, Sagas, Iman Iran e ainda algumas surpresas a anunciar brevemente.