Ser veterano, no Hip Hop, significa ter um acumulado de experiências que enriquecem o acto criativo e que possibilitam a adopção de múltiplos pontos de vista sobre o mundo. D-Mars é um veterano. O caminho – desde a Croácia até Portugal, desde os Zona Dread até aos Micro ou desde a produção intensa de maquetes até à Loop:Recordings – nunca foi fácil. Mas D-Mars não se queixa. Todas as suas conquistas são pessoais e “Filho da Selva”, o álbum que marca a sua estreia a solo, é fruto de todas as experiências, de todas as conquistas e de todas as falhas. É honesto. E é, sem dúvida, uma obra madura de quem entende o Hip Hop como um território vasto onde a realidade nunca é singular. O percurso de D-Mars reflecte o próprio percurso do Hip Hop nacional. Desde a infância dos sonhos de quem queria apenas rimar sobre o mundo e por isso agarrou todas as oportunidades – como “Rapública” – até à adolescência da militância “underground” quando o Rap desapareceu da praça pública para se instalar num meio muito mais subterrâneo e codificado onde a música que ia sendo criada circulava de quarto em quarto em cassetes de produção caseira. Esse período de militância – praticamente toda a segunda parte da década de 90 – provocou sede a quem o atravessou. D-Mars tinha sede de crescer, de se impor, de alargar o impacto reduzido que o Hip Hop tinha entre nós. As mixtapes, compilações (como “Hip Hoportuga 2000”, que ele próprio produziu e lançou) e as edições de autor (“Microstática”, o primeiro álbum dos Micro, que escancarou a porta das edições em nome próprio com que o Hip Hop português começou a fazer barulho) foram degraus num caminho que o conduziu até ao presente. Como o foram os muitos concertos quase secretos em que participou ou a sua passagem pela rádio (Hip Hop Don’t Stop na Marginal ou Submarino na Antena 3). Em 2001, D-Mars dava o salto que a sua sede há muito tinha despertado e assumiu – enquanto co-fundador da Loop:Recordings – uma missão. A de elevar a visibilidade e profissionalismo do Hip Hop feito em Portugal. Essa missão traduziu-se não apenas em “Demo Style” e “Microlandeses” (duas obras dos Micro lançados já pela Loop:Recordings), mas igualmente no seu trabalho de estúdio com outros protagonistas do movimento como Fuse, Sam The Kid ou Mundo Complexo, na programação de espectáculos que nos permitiram ver por cá gente como Rodney P, Braintax ou De La Soul e ainda, enquanto “formador”, na organização de Workshops de Hip Hop um pouco por todo o país (Porto, Lisboa, Oeiras, Alentejo, Margem Sul). Como será fácil de perceber, o alcance das movimentações de D-Mars no tabuleiro do Hip Hop Nacional é muito vasto. E todas essas experiências justificam mais este passo: “Filho da Selva”, a visão microlandesa de 2003. Inteiramente produzido, gravado e misturado pelo próprio D-Mars (apenas um dos beats traz a assinatura de Iman Iran), numa prova de auto-suficiência que só torna a sua visão do mundo ainda mais pessoal, “Filho da Selva” é um álbum sério e cuidado, onde o próprio crescimento de D-Mars enquanto músico – e não apenas produtor ou MC – se revelou como um desafio importante. Muitos dos temas apresentados dispensam mesmo por completo os “loops” samplados e optam pela via da programação de linhas de baixo, de melodias sintetizadas e de “kicks” fortes e tarolas cortantes. Com “Filho da Selva”, D-Mars entra numa nova galáxia. A Selva tem sido, muito particularmente no universo do Hip Hop, uma metáfora recorrente para a Cidade. E neste álbum, D-Mars assume essa urbanidade como nunca, fazendo o seu olhar circular pela noite e pelo dia, pelas ruas e pelos clubes, procurando o seu lugar no meio desse complexo sistema. O Hip Hop é, quase sempre, o próprio objecto das reflexões: “Mete a Batida”, “Trago Sons da Rua” ou “Para toda a Minha Gente” procuram esclarecer o seu lugar no mundo, falam de irmandade, de militância e transmitem uma energia pura. O primeiro single retirado de “Filho da Selva” junta D-Mars a um outro veterano – Melo D, nome conhecido dos Cool Hipnoise e dos Family. E o retrato não podia ser mais claro: o poder que o Hip Hop adquire dentro de um clube, o elemento de celebração e a rendição incondicional ao “groove” estão lá. Carla Moreira dá o toque final num tema que foi feito à medida dos “sound systems” dos clubes, à medida das pistas de dança e que clama por ser dançado. Porque é exactamente disso que se trata: movimento; festa; união; energia! Além de Melo D e de Carla M (como D-Mars gosta de lhe chamar), participam neste disco gente como Francisco Rebelo (dos Cool Hipnoise e Space Boys que assegura baixo, sintetizadores e até co-produção num tema), Ridículo dos Mundo Complexo, Fuse e Aprendiz (dos Ofício), um nome da nova geração. “Filho da Selva” é um disco de emoções explícitas, de ritmos explícitos e de palavras directas. Não há segundas intenções e todas as propostas são muito claras. D-Mars quer dar o passo seguinte na sua carreira e transportar o Hip Hop de novo para o domínio da festa, sem perder no entanto de vista a militância que sempre o caracterizou e a honestidade que sempre investiu em tudo o que faz. Num gesto inédito no panorama Hip Hop nacional, “Filho da Selva” chega ao mercado acompanhado de um bónus importante: “Políticas à Parte”, assinado com o alter-ego Mars One, é um álbum bem diferente de “Filho da Selva” que quase representa um regresso às origens da música produzida por reflexo, de forma automática, por afirmação, mas também por necessidade. No fundo é praticamente o reverso da moeda apresentada em “Filho da Selva”, o seu negativo, com uma forma de escrita diferente e estratégias de produção igualmente diversas. D-Mars já não quer provar nada a não ser a si mesmo. E “Filho da Selva” é a sua afirmação clara para 2003. Groove, inteligência e um domínio perfeito de todas as fases de produção conduziram-no até aos temas aqui apresentados. Só nos resta colocar o CD no leitor, dar à chave e percorrer a selva com a sua mais perfeita banda sonora: uma música carregada de emoções e atravessada por energia pura!